Agricultura e jovens: a luta por um setor que tem sempre futuro
O campo português está a envelhecer e a sangrar talentos. Entre a pressão para produzir mais com menos e a falta de apoios, a renovação geracional é uma urgência. Mas na FNA26, em Santarém, quem trabalha a terra garante que o futuro passa por romper com o passado e exigir dignidade.
O campo não é uma «arte de empobrecer»
Há uma imagem antiga e cruel que teima persistir na sociedade portuguesa: a de que a agricultura é sinónimo de sacrifício sem retorno. Pedro Miguel Santos, da Consulai, não tem papas na língua e ataca logo este preconceito. «É importante deixar de passar a mensagem de que a agricultura é uma arte de empobrecer alegremente», dispara. «É uma imagem absolutamente negativa do setor e não é verdade, é possível viver muito bem da agricultura.»
A realidade atual mostra mesmo um cenário diferente, onde o campo atrai já engenheiros informáticos, de dados e aeroespaciais. As competências mudaram, mas o estigma popular continua de pedra e cal, afastando quem poderia ser a renovação de uma atividade que é a espinha dorsal do país.
A assimetria que esmaga os pequenos agricultores
Quando se fala em tecnologia, o pensamento vai logo para drones e sensores de última geração. Mas a inovação no campo é, acima de tudo, uma questão de saber e sobrevivência. José Azoia, agricultor e especialista em agricultura regenerativa, explica que o caminho passa por voltar às origens, mas com nova ciência. «Estamos a pegar muito em técnicas antigas mas com uma grande componente tecnológica que hoje em dia nos dá o suporte técnico e científico», refere.
Porém, o acesso a estas ferramentas está longe de ser justo. Pedro Miguel Santos reconhece que a adoção tecnológica em Portugal é «muito assimétrica». Quem tem grandes explorações consegue investir. Os pequenos agricultores ficam para trás, esmagados pela fragmentação da propriedade, pelo envelhecimento da população e pela crónica falta de capacidade de investimento do país. É a lei do mais forte a ditar quem resiste.
Produzir mais com menos: a pressão do sistema
João Matamouros Pinto, da Rovensa Next Portugal, não se esconde à realidade nua do mercado. «Somos cada vez mais forçados a produzir mais com menos, a preços mais baixos», denuncia. O desafio é brutal porque passa não só pelas exigências da fileira produtiva, mas também pela pressão do consumidor, que exige qualidade a preços de saldo. É a armadilha do mercado que espreme quem produz.
Para tentar quebrar este ciclo de dependência de fertilizantes caros, a sua empresa apresenta bio-soluções à base de óleo de laranja, que permitem substituir ou otimizar produtos químicos caríssimos. Uma gota de esperança num oceano de custos que não para de subir.
Onde estão os jovens?
A falta de sangue novo é a ferida mais exposta do setor. João Matamouros Pinto admite a «dificuldade em fazer recrutamento e captação de talento». A atividade exige conhecimentos transversais e permanentes atualizações que já nada têm a ver com a agricultura de antigamente.
José Azoia, que confessa ter-se instalado no campo «graças ao PDR», é claro sobre a ausência de jovens. O agricultor faz um apelo veemente para que se acabe com a ideia de que a agricultura é retrógrada. «Estamos na ponta da tecnologia, estamos na ponta da defesa do ambiente, não há ninguém que defenda mais o ambiente que não sejam os agricultores e somos a profissão que vai ter sempre futuro», conclui.
Enquanto as políticas públicas não facilitarem a entrada dos jovens e não combaterem a assimetria de oportunidades, o campo continuará a lutar de mãos atadas. Mas a resistência está viva, bem no centro do CNEMA, onde a Feira Nacional de Agricultura decorre até 14 de junho.