Oceanos em colapso: ONU lança alerta vermelho ao mundo
Enquanto governos fazem promessas e corporações lucram, os oceanos estão a morrer. É isto que nos diz o mais completo relatório alguma vez produzido sobre o estado dos mares, apresentado esta segunda-feira pela Organização das Nações Unidas, no Dia Mundial dos Oceanos.
A terceira Avaliação Global dos Oceanos (WOA III) juntou 600 cientistas de 86 países ao longo de vários anos. O resultado são 1.350 páginas que não deixam margem para dúvidas: a situação está a agravar-se e é preciso ação urgente.
O oceano é a base da vida na Terra. Mas a sua saúde está gravemente ameaçada, uma vez que os ecossistemas e os habitats estão a aproximar-se ou a ultrapassar pontos críticos de inflexão.
As palavras são dos autores do relatório, que analisou o período entre 2018 e 2023. As conclusões são claras: não podemos continuar a tratar o oceano como um recurso inesgotável. Foi o que disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, num apelo que soa a reprovação a décadas de exploração sem limites.
Os números que doem
Os dados são frios, mas contam histórias reais. Histórias de comunidades costeiras que veem o mar subir, de pescadores artesanais que encontram mais plástico do que peixe, de ecossistemas inteiros a desaparecer.
Desde 2018, 16% de todo o aquecimento oceânico dos últimos 70 anos aconteceu. Em apenas cinco anos. Os oceanos sempre foram o amortecedor climático do planeta, absorvendo o excesso de calor, mas agora estão a acidificar a um ritmo sem precedentes.
A subida do nível do mar é outro sinal alarmante. Antes de 2015, a média era de dois milímetros por ano. Em 2023, passou para 4,3 milímetros por ano. O dobro. Para as famílias que vivem nas zonas costeiras, que representam 37% da população mundial, isto não é uma estatística. É uma ameaça direta às suas casas e aos seus meios de vida.
Até 2035, pode já não haver gelo no Oceano Ártico no final do verão. Um cenário que há poucos anos parecia impossível.
Plástico, veneno e lucro
Todos os anos, 52,1 milhões de toneladas de plástico acabam no oceano. São 24,4 triliões de partículas nas camadas superficiais dos mares. As micropartículas já afetam mais de 4.000 espécies.
Enquanto isto, a indústria do plástico continua a produzir como se não houvesse amanhã. E as consequências caem sobre quem menos pode pagar: as comunidades de pescadores, as populações costeiras do Sul global, as espécies que não têm voz.
O relatório mostra que alguns contaminantes históricos, como o mercúrio, parecem estar a diminuir. Mas outros estão a aumentar: produtos de limpeza, resíduos de antibióticos e, sobretudo, plástico.
Desde o branqueamento de corais até às tartarugas engolidas por plástico, a lista de espécies e habitats em risco é longa. As pressões humanas e climáticas têm efeitos cada vez mais pronunciados em toda a biodiversidade marinha, desde os microrganismos aos mamíferos marinhos e das planícies abissais às zonas costeiras.
Greenpeace: santuários marinhos já
A organização ambientalista Greenpeace não se ficou por palavras diplomáticas. Este relatório deve servir como um alerta urgente, reagiu, apelando à criação de santuários marinhos totalmente protegidos que proíbam toda a atividade humana de exploração.
O alvo é claro: a pesca industrial e a mineração em águas profundas, duas atividades que transformam o mar numa mina a céu aberto, ao serviço dos interesses corporativos.
Tratado do Alto Mar: um passo, mas não chega
O relatório descreve a adoção do Tratado do Alto Mar, que entrou em vigor em janeiro, como um passo decisivo. Mas os autores são claros: o desafio continua a ser o de superar a fragmentação entre os Estados e os interesses setoriais.
Numa altura em que o multilateralismo enfrenta desafios significativos, a verdade é que os interesses económicos continuam a falar mais alto do que a ciência. Os oceanos não podem esperar por mais relatórios. Precisam de ação política corajosa, que coloque a vida acima do lucro.