O pintor e escultor sul-coreano Lee Ufan mostra-se pela primeira vez em Portugal com a exposição “Fragmentos do Infinito”, que abre ao público esta sexta-feira na Casa de Serralves, no Porto, e fica patente até 07 de março de 2027. A mostra inclui três esculturas ao ar livre espalhadas pelo parque, quatro pinturas meditativas e uma obra executada em oito dias dentro da própria Casa.
Segundo o Notícias ao Minuto, o artista de 89 anos, nascido em 1936 e a trabalhar entre Kamakura, no Japão, e Paris, escolheu Serralves para propor ao público português “uma experiência de encontros”, feita de pedras, aço, luz e silêncio.
Uma arte contra a pressa dos algoritmos
Numa altura em que tudo se resolve em segundos no ecrã do telemóvel, Lee Ufan defende o contrário: lentidão, corpo, materiais palpáveis. Falava no final de uma visita guiada organizada pelo curador Philippe Vergne, antigo diretor do Museu de Serralves, com as declarações traduzidas do japonês.
“Hoje em dia, com o desenvolvimento da inteligência artificial, nós conseguimos obter resposta de forma imediata e muito rápida. Mas, na minha opinião, a minha arte e a arte tem de ser algo que não seja imediato”, disse o artista.
“Queria proporcionar uma experiência não quotidiana”, acrescentou, sublinhando valorizar “o processo, as coisas serem feitas com calma”, envolvendo “o físico, aquilo que é palpável, a natureza, o universo, o relacionamento das coisas”.
Num mundo que empurra cada vez mais gente para o trabalho precário e o consumo acelerado, esta recusa da imediatez soa também a resistência. Não será por acaso que a arte feita de pedras brutas e placas de aço continua a atrair quem procura outra relação com o tempo e com o espaço, uma preocupação que atravessa muitos debates atuais sobre o futuro do trabalho e da vida coletiva.
Pedras e aço: o que se pode ver em Serralves
A exposição apresenta a série “Relatum”, construída a partir do encontro entre grandes pedras e placas de aço. Estão patentes “Relatum – The Sky Road” (2026), “Relatum – Dialogue” (2026) e “Relatum – Jump Stand” (2026), três esculturas ao ar livre no parque, além de “Relatum – Silentium” (2026), que coloca uma pedra diante de uma tela; “Relatum – The Dream of Stone” (2026), que junta pedra e luz; e “Relatum – Dwelling” (2026), na qual pedras delicadamente sobrepostas cobrem o chão do átrio da Casa de Serralves.
Sobre esta última obra, composta por várias lousas negras com alguma instabilidade, Lee Ufan contrapõe a Casa, “um edifício com uma história um pouco antiga”, a “um prédio mais primitivo, não perfeito”.
“Quero que todos experimentem um espaço tão incompleto, tão incompleto, que possam experimentar a natureza”, explicou, descrevendo algo com “quase a idade dos primórdios dos seres humanos”, em que “as pessoas caminham e fazem estes sons de chocalhar”, sentindo isso “em termos do corpo e dos sentidos”.
A mostra inclui ainda quatro pinturas da série “Response”, de 2023 e 2025, e uma obra executada em oito dias dentro da Casa de Serralves. Sobre esta, o artista admitiu que “à primeira vista pode parecer uma pintura”, mas para si “é uma escultura”, pretendendo que “se interprete como sendo algo espacial, tridimensional”.
Quem é Lee Ufan e porque importa a Escola das Coisas
Philippe Vergne lembrou que “o primeiro marco” de Lee Ufan na arte e na cultura “foi com o pensamento, como escritor e crítico”. Os seus escritos dos anos 60 e 70 do século XX “influenciaram gerações de artistas avant-garde na Ásia e em todo o mundo, mais especificamente o movimento japonês chamado Mono-ha, a Escola das Coisas”.
Esse movimento utilizava “materiais brutos e não transformados, como pedra, madeira, metal e vidro, dispondo-os em justaposições simples, mas de grande intensidade”, tendo Lee Ufan desempenhado “um papel fundamental na deslocação do foco da arte contemporânea da representação para o encontro direto com os materiais e com as relações espaciais que estes estabelecem entre si”.
O curador salientou ainda que “todo o trabalho” de Lee Ufan “é baseado na identificação, na revelação, no trio de relações visuais, relações intelectuais, relações estéticas”, evidenciando as noções de “encontro, diálogo e ‘relatum’, algo relatado”, o conceito que dá nome à série.
Numa nota sobre a exposição, Serralves destaca que “‘Fragmentos do Infinito’ propõe uma reflexão rigorosa sobre as relações entre interior e exterior, objeto e paisagem, e sobre a experiência percetiva que o artista tem vindo a desenvolver ao longo do seu percurso”.
Perguntas frequentes
Onde e até quando se pode ver a exposição de Lee Ufan em Portugal?
A exposição “Fragmentos do Infinito” está patente na Casa de Serralves, no Porto, a partir de sexta-feira e até 07 de março de 2027.
O que incluye a mostra “Fragmentos do Infinito”?
Inclui três esculturas ao ar livre no parque de Serralves, quatro pinturas meditativas da série “Response” e uma obra executada em oito dias na Casa de Serralves, além de várias peças da série “Relatum”.
Quem é Lee Ufan?
É um pintor e escultor sul-coreano nascido em 1936, que trabalha entre Kamakura, no Japão, e Paris. Foi também escritor e crítico, com papel de destaque no movimento japonês Mono-ha, a Escola das Coisas.
