Profissionais de integridade desportiva na América Latina estão a tentar mudar as suas organizações quase sem meios, segundo um balanço publicado pelo Record a 15 de outubro de 2026. Em várias federações da região, uma única pessoa acumula governação, compliance, proteção de atletas e desenvolvimento institucional.
O retrato vem de Vinicius Sousa, diretor sénior de Relações Institucionais e Parcerias Estratégicas da SIGA para a América Latina, que nos últimos tempos conversou com representantes de organizações desportivas do Brasil, Argentina, Paraguai, Peru, Colômbia e Bolívia. A conclusão é clara: há vontade, faltam recursos.
Que realidade encontrou a SIGA na América Latina?
As conversas, realizadas no âmbito da aproximação institucional da SIGA na região, envolveram organizações de futebol, voleibol, desportos aquáticos, judo, vela, surf, ténis de mesa e o movimento olímpico. As realidades diferem, mas os problemas repetem-se de país para país.
Numa das entidades, uma só pessoa acompanha governação, compliance, proteção dos atletas e desenvolvimento institucional. Noutra, o responsável pela integridade tenta alargar programas educativos e melhorar canais de denúncia sem qualquer equipa dedicada. São trabalhadores isolados, sem estrutura, a carregar nas costas a defesa de atletas e a transparência das instituições.
Segundo o texto publicado pelo Record, não faltam empenho nem iniciativas. O desafio está em garantir que estes esforços têm apoio institucional, recursos e condições para produzir resultados duradouros.
Compromissos no papel, mudanças na prática
A pressão por integridade não vem apenas de dentro. O Comité Olímpico Internacional desenvolveu orientações para um Desporto Seguro, destinadas a prevenir e combater assédio, discriminação, abuso e negligência, protegendo a integridade física e psicológica dos atletas. A FIFA reforçou no seu Manual de Integridade de 2024 a importância dos responsáveis pela área, dos mecanismos de denúncia e de programas permanentes de educação e prevenção da manipulação de competições.
São avanços reais, mas criar uma função, aprovar um regulamento ou estabelecer procedimentos é apenas o começo. É preciso formar profissionais, afetar recursos, assegurar o apoio das lideranças e garantir a continuidade das políticas mesmo quando mudam os órgãos dirigentes.
Os patrocinadores e parceiros comerciais também estão mais atentos à transparência e à gestão de riscos das organizações com que trabalham. A integridade deixou de ser apenas uma obrigação institucional para se tornar uma questão de confiança, credibilidade e sustentabilidade do próprio desporto.
Cooperação internacional como resposta
É na passagem dos compromissos à implementação que a cooperação internacional pode ajudar, defende a SIGA. A organização apoia este processo através dos seus Standards Universais e de instrumentos como o Gap Analysis e o Sistema Independente de Rating e Verificação (SIRVS), que identificam oportunidades de melhoria e avaliam a aplicação de boas práticas.
Este compromisso orienta também a MISSION 100, nova iniciativa global da SIGA que quer reunir organizações desportivas, governos, empresas, instituições académicas e sociedade civil em torno de um objetivo: tornar a integridade um compromisso institucional permanente, traduzido em padrões, práticas e resultados mensuráveis.
Uma questão de justiça social
Para quem olha para o desporto a partir das classes populares, esta discussão não é um luxo de gabinete. Os atletas protegidos por estas políticas são, na sua maioria, jovens de bairros e vilas que veem no desporto uma via de mobilidade social. Quando as estruturas falham, quem paga é quem tem menos voz: o atleta menor de idade vítima de abuso, o desportista pressionado para manipular resultados, o trabalhador que denuncia e fica sozinho.
A história do desporto está cheia de casos em que a proteção dependeu da coragem individual de uns poucos. A exigência agora é outra: que a integridade deixe de depender da dedicação de profissionais isolados e passe a estar incorporada nas estruturas, na cultura e nas decisões das organizações desportivas.
A América Latina reúne organizações em fases muito diferentes de desenvolvimento institucional. Essa diversidade pode ser uma oportunidade para aproximar experiências e construir soluções adaptadas a cada realidade, concluiu Vinicius Sousa.
Perguntas frequentes
Quem revelou a situação dos profissionais de integridade na América Latina?
Vinicius Sousa, diretor sénior de Relações Institucionais da SIGA América Latina, em balanço publicado pelo Record a 15 de outubro de 2026, com base em conversas com organizações de seis países.
Que organismos internacionais pressionam por mais integridade no desporto?
O Comité Olímpico Internacional, com as orientações para um Desporto Seguro, e a FIFA, que reforçou no Manual de Integridade de 2024 os mecanismos de denúncia e os programas de prevenção da manipulação de competições.
O que é a MISSION 100 da SIGA?
É uma iniciativa global que reúne organizações desportivas, governos, empresas, academia e sociedade civil para tornar a integridade um compromisso institucional permanente, com padrões e resultados mensuráveis.
